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Enfrentando a tempestade econômica

Susan Cramm, especialista do setor de TI, oferece pontos de vista e orientação para executivos

Você tem de lidar todas as semanas com uma nova surpresa provocada pela recessão ou está centrado e focado em concluir o seu próximo projeto? A sua resposta poderá depender da organização em que trabalha e da cultura da sua empresa. Susan Cramm, coach executiva e especialista do setor de TI, oferece os seus pontos de vista sobre as dificuldades mais comuns sentidas pelos executivos na situação econômica atual, e as medidas adotadas pelas empresas de sucesso para enfrentá-las.

P: Qual é a percepção geral dos executivos com quem trabalha sobre o estado da economia?

R: Vejo duas perspectivas diferentes. Os executivos sênior têm uma atitude bastante sombria, enquanto os gerentes de operações estão mais otimistas. Muitos executivos não têm nenhuma experiência anterior em relação às mudanças sistêmicas na economia, e têm muito cuidado com as decisões que tomam. Descendo pela hierarquia, as pessoas estão simplesmente focadas no trabalho. Falei com vários gerentes de operações que não param de falar sobre os projetos empolgantes que têm para os próximos 12-18 meses.

Nas culturas empresariais saudáveis, as pessoas estão trabalhando em conjunto, em regime de cruzamento de funções. Nas culturas empresariais sem um histórico de altos e baixos, a resistência da organização está sendo testada e os resultados nem sempre são positivos. Com o medo, as pessoas podem desenvolver uma atitude de culpabilização. Muitas empresas que iniciaram recentemente a sua atividade e que ainda não foram testadas estão revelando algumas facetas obscuras, quer se trate da gestão de demissões, de despesas ou da perda de clientes. Uma abordagem positiva é dizer, "calma, nenhum de nós tem obrigação de ter resposta para tudo”. Ao invés de recorrer às estruturas deliberativas e de gestão usuais para tentar resolver a situação atual, as empresas saudáveis estão adotando a abordagem de “mãos à obra”.

P: Na sua opinião, quais são as medidas mais necessárias que os executivos devem adotar para garantir uma gestão eficaz durante esta crise econômica?

É muito importante estimular um sentido de propósito no seio da organização. As pessoas com responsabilidades de liderança não podem se esconder num canto. Se quiserem estar receosos, irritados ou zangados em casa, tudo bem. Mas no trabalho, são pagos para ajudar e orientar os funcionários. Para tal, deve-se inserir os acontecimentos em um determinado contexto e dar-lhes um propósito – aspectos fundamentais da liderança. Em segundo lugar, é preciso ter um sentido de humanidade. Tente compreender as pessoas, mostre o seu caráter, ouça as aspirações, sonhos e receios das pessoas e ajude-as a lidar com tudo isso de forma humana e transparente.

P: Em termos de desemprego, acha que as mídia apresentam uma visão exata da situação?

R: Até certo ponto acho que apresentam uma visão distorcida. Li recentemente um artigo que revelava quem está realmente desempregado. Para os que têm bacharelado, a taxa é de apenas 4,5%. Para as pessoas sem diploma do ensino médio ou superior, ou que tenham estado trabalhando no setor da manufatura, a taxa é mais alta. O artigo acrescentava que este segundo grupo está perdendo empregos por dois motivos: o declínio na demanda de determinados bens e serviços e o fato de os seus empregos serem globalizados. Isto me diz que há uma tendência a mais longo prazo para a perda deste tipo de empregos.

O que é interessante considerar é que muitas dessas pessoas não tinham muito rendimento disponível anteriormente. Não são eles que estão impulsionando a economia e criando a situação em que nos encontramos. Assim, o fato de estarem desempregados agora não muda grande coisa. As pessoas “empregadas mas receosas” é que estão na origem desta queda, tal como nós estamos do ponto de vista do consumo. Toda as pessoas estão cortando nas despesas, mas muitos dos que o fazem ainda têm emprego. A desvantagem para o grupo com uma maior taxa de desemprego é que, quando a economia voltar a se equilibrar, poderão não participar porque os seus empregos terão desaparecido. Poderemos estar perante um grupo permanente de desempregados para o qual teremos de tentar arranjar soluções para ajudar.

Em termos de mídia, está tudo focado no aspecto visual. E tendo o setor editorial as dificuldades que tem, isso significa que os cabeçalhos poderão começar a parecer tablóides. Os títulos provocantes prendem a atenção visual das pessoas. Deste modo, é importante compreender os detalhes por trás destes dados estatísticos e destas declarações, visto que tendem a influenciar o nosso comportamento.

P: No seu blog diz que nada mudou efetivamente para o profissional médio de TI. Poderia explicar em mais detalhe?

R: O CIO da Microsoft, Tony Scott, afirmou que a TI está em recessão há algum tempo, e eu concordo com ele. A TI atingiu o apogeu com o aumento vertiginoso dos gastos antes do ano 2000. Quando isso acabou, a TI ficou com os custos herdados, já que, para cada dólar investido em um novo recurso de TI, é preciso continuar gastando para o manter atual. Desde o ano 2000, esses gastos entraram em declínio, e a TI tem-se focado na transparência de custos, na disciplina de processos, na terceirização e na administração de gastos de capital há já algum tempo.

Criamos uma competência chave de podermos demitir as pessoas, mas talvez tenhamos eliminado simultaneamente parte da nossa consciência. O responsável
costumava sentir alguma culpa. Isso acabou.

Por outro lado, poderemos estar demasiado acostumados ao corte de despesas e à disciplina fiscal. Um gerente de nível médio com quem trabalhei obteve uma avaliação completa com um excelente feedback de relatórios diretos, de parceiros de negócios e do seu superior. Era estimado por toda a gente. Depois, perdeu um terço do seu departamento num processo de demissão. Comentei com ele que deve ter sido extraordinariamente difícil lidar com isso. Ele encolheu simplesmente os ombros e disse, “a vida é assim”.

Criamos uma competência chave de podermos demitir as pessoas, mas talvez tenhamos eliminado simultaneamente parte da nossa consciência. O responsável costumava sentir alguma culpa. Isso acabou.

P: Os executivos estão mudando a forma como vivem e trabalham na situação econômica atual?

R: Existe uma enorme quantidade de estudos de neurociência que questionam se as pessoas realmente mudam. Passamos a maior parte da nossa vida acordada num estado basicamente inconsciente em que funcionamos com base no que aprendemos no passado. Para realmente mudarmos o nosso comportamento, temos de transitar para uma nova parte do cérebro, imediatamente acima dos centros de dor. Isso é doloroso e ficar lá muito tempo cansa-nos.

Por isso, quando vejo os artigos que há sobre o fato desta recessão estar causando mudanças profundas e estar nos obrigando a voltar ao início e a uma vida mais rica e profunda, fico céptica. Suponho que, se esta situação se prolongar tanto como a depressão, poderá haver tempo suficiente para reorganizarmos os nossos gânglios basais e mudarmos de maneira fundamental o modo como encaramos o consumo, a qualidade de vida e assim por diante. Caso contrário, isto poderá ser apenas um momento transitório. A menos que uma situação se mantenha por um período de tempo prolongado, não mudará os comportamentos. No entanto, acredito realmente que os líderes possam precipitar a mudança se tiverem intenção de fazê-lo e se tomarem decisões estratégicas para implementar novos comportamentos no futuro.

P: Qual é a próxima área que irá focar?

R: Estou escrevendo um livro intitulado “Os 8 aspectos mais odiados da TI” (com o subtítulo: Como ultrapassar a frustração e formar uma nova parceria com a TI), que será lançado no primeiro trimestre do próximo ano. O público alvo são os líderes de negócios de nível operacional que desejem compreender como liderar com a tecnologia. De acordo com uma sondagem que estamos realizando, muitos líderes de negócios sentem-se incompetentes para liderar com base na tecnologia. Os seus equivalentes em TI estão fazendo tudo que está a seu alcance para minimizar a disparidade, mas estão ficando sem idéias. Existe uma disparidade. E visto que é impossível impulsionar o negócio sem TI, teremos que eliminar essa disparidade. O livro abordará os princípios fundamentais da liderança, isto é, como alavancar TI como uma vantagem, e não apenas como uma estrutura organizacional.

 

Acerca de Susan Cramm

Susan Cramm é fundadora e presidente da Valuedance e é uma especialista reconhecida em liderança e coaching na área da tecnologia da informação. É a antiga CFO e vice-presidente executiva dos restaurantes mexicanos da Chevy’s. Antes de trabalhar na Chevy’s, Cramm trabalhou na Taco Bell Corporation, tendo ocupado os cargos de CIO e Vice-presidente do Information Technology Group (Grupo de Tecnologia da Informação) e Diretora Sênior de Planejamento Financeiro e Estratégico.

 
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